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quarta-feira, 2 de outubro de 2013
Animações de Contos - Machado de Assis
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domingo, 7 de julho de 2013
Para viver um grande amor
Olá meus queridos, esse ano em que comemoramos o Centenário de Vinícius de Moraes, trago um pouquinho dele pra vocês. Espero que gostem!
Pode-se dizer deste livro que ele é um clássico moderno. Publicado pela primeira vez em 1962, seu público leitor só fez crescer desde então. O título — Para viver um grande amor — parece
exercer sobre nós um grande fascínio. Vinicius de Moraes não decepciona
seu
leitor. E talvez devêssemos acrescentar: ele nunca nos decepciona,
alçando-nos, ao contrário, além de nossas expectativas. Para viver um grande amor estrutura -se de
modo singular: alterna poesia e prosa. As crônicas guardam as marcas
típicas
do gênero, como a observação aguda do cotidiano e a linguagem despojada.
Mas, além disso, conforme o próprio Vinicius, “há, para o leitor que se der ao trabalho de percorrê-las em sua integridade, uma unidade evidente que as enfeixa: a do grande amor”.
Mas, além disso, conforme o próprio Vinicius, “há, para o leitor que se der ao trabalho de percorrê-las em sua integridade, uma unidade evidente que as enfeixa: a do grande amor”.
terça-feira, 18 de junho de 2013
A Bola que Rola
Onze contos de renomados autores trabalhando com sensibilidade o tema
futebol. As lembranças das competições, campeonatos, amizades e emoções
são revividas em todos os textos. O sentido do jogo de futebol, nos
relatos dos autores, ressalta a importância desse jogo para a formação
de valores humanos e os encantos mágicos da bola que rola.
quinta-feira, 6 de junho de 2013
Histórias Apaixonadas
Os
personagens de Histórias Apaixonadas são garotos e garotas que vivem aquela
fase que deixa a todos em constante ebulição: a adolescência. O autor do volume
é Pedro Bandeira, um dos mais renomados autores brasileiros, muito querido
pelas crianças e jovens leitores. "Eu sempre adorei histórias curtas,
desde as ouvidas no colo de minha mãe, cheias de bruxas, de fadas e
encantamento, até as que eu ainda vou ler, mas já sei que vou gostar",
afirma o escritor. Este livro reúne sete contos (ou "encontros de
amor", como a eles se refere Bandeira): "A garota dos sonhos";
"O que tinha de ser"; "Amor de trás pra frente";
"Minha princesa"; "Volta e meia vamos dar"; "O par de
tênis" e "Eu quero ficar com você".
Em
todos eles, retrata-se a descoberta do amor, que costuma deixar marcas
profundas e lembranças jamais esquecidas. Com toda a sua habilidade narrativa,
além da sensibilidade em trazer à luz sentimentos essenciais, Pedro Bandeira dá
vida ímpar a seus personagens.
Um
exemplo disso é Edvaldo, despertado pela colega de classe Melissa para sua
primeira grande paixão. Sonhando em realizar algum ato heróico para chamar a
atenção da menina, Edvaldo é capaz de correr riscos numa mata fechada ao tentar
encontrar Melissa, que ele julgava perdida.
Em
outro conto, o casal de jovens Amelinha e Marcel aparece para compor um enredo
que mistura desconfianças, idealizações do futuro comum e a compreensão
gradativa de que o amor é um sentimento muito complexo.
Marina
é outra personagem que se destaca no conjunto dos contos de Histórias
apaixonadas, uma garota que espanta as amigas ao dizer que nunca
"ficou" com ninguém. O privilégio deste primeiro momento cabe a
Renato, jovem bacana e bonito, que toca muito bem violão - e o coração das
meninas. Só que Marina entende com maturidade os diversos sentidos de sua
primeira "ficada" e define para si mesma, antes de tudo, o que quer e
como quer que aconteça.
Pedro Bandeira revela
que algumas histórias que compõem o volume foram ensaiadas por décadas,
"durante um longo, às vezes gostoso, às vezes doloroso aprendizado, para
que eu possa dividir com você as emoções que vivi durante uma vida inteira nas
trilhas do amor". Os personagens e os contos de Histórias apaixonadas
demonstram que o escritor tirou grande proveito de seu aprendizado pessoal.
sábado, 4 de maio de 2013
Contos
O tamanho não é o que faz mal a este gênero de histórias. É naturalmente a qualidade; mas há sempre uma qualidade nos contos que os torna superiores aos grandes romances, se uns e outros são medíocres: é serem curtos.
Machado de Assis
O conto é um texto
narrativo centrado em um relato referente a um fato ou determinado
acontecimento. Sendo que este pode ser real, como é o caso de uma
notícia jornalística, um evento esportivo, dentre outros. Podendo também
ser fictício, ou seja, algo resultante de uma invenção.
No que se refere às origens, o mesmo remonta aos tempos antigos, representado pelas narrativas orais dos antigos povos nas noites de luar, passando pelos gregos e romanos, lendas orientais, parábolas bíblicas, novelas medievais italianas, pelas fábulas francesas de Esopo e La Fontaine, chegando até os livros, como hoje conhecemos.
No que se refere às origens, o mesmo remonta aos tempos antigos, representado pelas narrativas orais dos antigos povos nas noites de luar, passando pelos gregos e romanos, lendas orientais, parábolas bíblicas, novelas medievais italianas, pelas fábulas francesas de Esopo e La Fontaine, chegando até os livros, como hoje conhecemos.
Em meio a esta trajetória, revestiu-se de inúmeras classificações,
resultando nas chamadas antologias, as quais reúnem os contos por
nacionalidade: brasileiro, russo, francês e por categorias relacionadas
ao gênero, denominando-se em contos maravilhosos, policiais, de amor,
ficção científica, fantásticos, de terror, mistério, dentre outras
classificações, tais como tradicional, moderno e contemporâneo.
Perfaz-se de todos os elementos que compõem a narrativa, ou seja, tempo,
espaço, poucos personagens, foco narrativo de 1ª ou 3ª pessoa,
corroborando em uma sequência de fatos que constituem o enredo, também
chamado de trama.
E um dos fatores de total relevância, é que o enredo apresenta-se de
forma condensada e sintética, centrado em um único conflito. Tal
característica tende a criar o que chamamos de unidade de impressão,
elemento que norteia toda a narrativa, criando um efeito no próprio
leitor, manifestado pela admiração, espanto, medo, desconcerto,
surpresa, entre outros. O conto é uma obra de ficção que cria um universo de seres e
acontecimentos, de fantasia ou imaginação. Como todos os textos de
ficção, o conto apresenta um narrador, personagens, ponto de vista e
enredo.
Classicamente, diz-se que o conto se define pela sua pequena
extensão. Mais curto que a novela ou o romance, o conto tem uma
estrutura fechada, desenvolve uma história e tem apenas um clímax. Num
romance, a trama desdobra-se em conflitos secundários, o que não
acontece com o conto. O conto é conciso.
Contistas famosos em Língua Portuguesa
Machado de Assis, Aluísio Azevedo e Artur de Azevedo destacam-se no panorama brasileiro do conto, abrindo espaço para contistas como Monteiro Lobato, Clarice Lispector, Ruth Rocha, Lima Barreto, Otto Lara Resende, Lygia Fagundes Telles, José J. Veiga, Dalton Trevisan e Rubem Fonseca.
Eça de Queirós, mais conhecido como romancista, é referência em Portugal por seus contos reunidos para publicação em 1902, dois anos após seu falecimento, bem como Branquinho da Fonseca, cuja obra inclui diversas antologias de contos.
quarta-feira, 1 de maio de 2013
A galinha ruiva
Era uma vez uma galinha ruiva, que morava com seus pintinhos numa fazenda.
Um dia ela percebeu que o milho estava maduro, pronto para ser colhido e virar um bom alimento.
A galinha ruiva teve a ideia de fazer um delicioso bolo de milho. Todos iam gostar!
Era muito trabalho: ela precisava de bastante milho para o bolo.
Quem podia ajudar a colher a espiga de milho no pé?
Quem podia ajudar a debulhar todo aquele milho?
Quem podia ajudar a moer o milho para fazer a farinha de milho para o bolo?
Foi pensando nisso que a galinha ruiva encontrou seus amigos:
- Quem pode me ajudar a colher o milho para fazer um delicioso bolo? - Eu é que não, disse o gato. Estou com muito sono.
- Eu é que não, disse o cachorro. Estou muito ocupado.
- Eu é que não, disse o porco. Acabei de almoçar.
- Eu é que não, disse a vaca. Está na hora de brincar lá fora.
Todo mundo disse não.
Então, a galinha ruiva foi preparar tudo sozinha: colheu as espigas, debulhou o milho, moeu a farinha, preparou o bolo e colocou no forno.
Quando o bolo ficou pronto ...
Aquele cheirinho bom de bolo foi fazendo os amigos se chegarem. Todos ficaram com água na boca.
Então a galinha ruiva disse:
- Quem foi que me ajudou a colher o milho, preparar o milho, para fazer o bolo?
Todos ficaram bem quietinhos. ( Ninguém tinha ajudado.)
- Então quem vai comer o delicioso bolo de milho sou eu e meus pintinhos, apenas. Vocês podem continuar a descansar olhando.
E assim foi: a galinha e seus pintinhos aproveitaram a festa, e nenhum dos preguiçosos foi convidado.
Se queremos dividir a recompensa, devemos compartilhar o trabalho.
Um dia ela percebeu que o milho estava maduro, pronto para ser colhido e virar um bom alimento.
A galinha ruiva teve a ideia de fazer um delicioso bolo de milho. Todos iam gostar!
Era muito trabalho: ela precisava de bastante milho para o bolo.
Quem podia ajudar a colher a espiga de milho no pé?
Quem podia ajudar a debulhar todo aquele milho?
Quem podia ajudar a moer o milho para fazer a farinha de milho para o bolo?
Foi pensando nisso que a galinha ruiva encontrou seus amigos:
- Quem pode me ajudar a colher o milho para fazer um delicioso bolo? - Eu é que não, disse o gato. Estou com muito sono.
- Eu é que não, disse o cachorro. Estou muito ocupado.
- Eu é que não, disse o porco. Acabei de almoçar.
- Eu é que não, disse a vaca. Está na hora de brincar lá fora.
Todo mundo disse não.
Então, a galinha ruiva foi preparar tudo sozinha: colheu as espigas, debulhou o milho, moeu a farinha, preparou o bolo e colocou no forno.
Quando o bolo ficou pronto ...
Aquele cheirinho bom de bolo foi fazendo os amigos se chegarem. Todos ficaram com água na boca.
Então a galinha ruiva disse:
- Quem foi que me ajudou a colher o milho, preparar o milho, para fazer o bolo?
Todos ficaram bem quietinhos. ( Ninguém tinha ajudado.)
- Então quem vai comer o delicioso bolo de milho sou eu e meus pintinhos, apenas. Vocês podem continuar a descansar olhando.
E assim foi: a galinha e seus pintinhos aproveitaram a festa, e nenhum dos preguiçosos foi convidado.
Se queremos dividir a recompensa, devemos compartilhar o trabalho.
quinta-feira, 25 de abril de 2013
A cartomante - Machado de Assis
A cartomante
Machado de Assis
Hamlet
observa a Horácio que há mais coisas no céu e na terra do que sonha a
nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço
Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria dela por
ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia
por outras palavras.
- Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe dissesse o que era. Apenas começou a botar as cartas, disse-me: "A senhora gosta de uma pessoa..." Confessei que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-as e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não era verdade...
- Errou! - interrompeu Camilo, rindo.
- Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua causa. Você sabe; já lhe disse. Não ria de mim, não ria...
Camilo pegou-lhe nas mãos e olhou para ela sério e fixo. Jurou que lhe queria muito, que os seus sustos pareciam de criança; em todo o caso, quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois, repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois...
- Qual saber! Tive muita cautela ao entrar na casa.
- Onde é a casa?
- Aqui perto, na rua da Guarda Velha; não passava ninguém nessa ocasião. Descansa; eu não sou maluca.
Camilo riu outra vez.
- Tu crês deveras nessas coisas? - perguntou-lhe.
Foi então que ela, sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que havia muita coisa misteriosa e verdadeira neste mundo. Se ele não acreditava, paciência; mas o certo é que a cartomante adivinhara tudo. Que mais? A prova é que ela agora estava tranqüila e satisfeita.
Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se. Não queria arrancar-lhe as ilusões. Também ele, em criança, e ainda depois, foi supersticioso, teve um arsenal inteiro de crendices, que a mãe lhe incutiu e que aos vinte anos desapareceram. No dia em que deixou cair toda essa vegetação parasita, e ficou só o tronco da religião, ele, como tivesse recebido da mãe ambos os ensinos, envolveu-os na mesma dúvida e logo depois em uma só negação total. Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia
dizê-lo, não possuía um só argumento; limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros e foi andando.
Separaram-se contentes, ele ainda mais que ela. Rita estava certa de ser amada; Camilo, não só o estava, mas via-a estremecer e arriscar-se por ele, correr às cartomantes, e, por mais que a repreendesse, não podia deixar de sentir-se lisonjeado. A casa do encontro era na antiga rua dos Barbonos, onde morava uma comprovinciana de Rita. Esta desceu pela rua das Mangueiras, na direção de Botafogo, onde residia; Camilo desceu pela da Guarda Velha, olhando de passagem para a casa da cartomante.
Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma aventura, e nenhuma explicação das origens. Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de infância. Vilela seguiu a carreira de magistrado. Camilo entrou no funcionalismo, contra a vontade do pai, que queria vê-lo médico; mas o pai morreu, e Camilo preferiu não ser nada, até que a mãe lhe arranjou um emprego público. No princípio de 1869, voltou Vilela da província, onde casara com uma dama formosa e tonta; abandonou a magistratura e veio abrir banca de advogado. Camilo arranjou-lhe casa para os lados de Botafogo e foi a bordo recebê-lo.
- É o senhor? - exclamou Rita, estendendo-lhe a mão. - Não imagina como meu marido é seu amigo; falava sempre do senhor.
Camilo e Vilela olharam-se com ternura. Eram amigos deveras. Depois, Camilo confessou de si para si que a mulher do Vilela não desmentia as cartas do marido. Realmente, era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa. Era um pouco mais velha que ambos: contava trinta anos, Vilela vinte e nove e Camilo vinte e seis. Entretanto, o porte grave de Vilela fazia-o parecer mais velho que a mulher, enquanto Camilo era um ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do tempo como os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de alguns para adiantar os anos. Nem experiência nem intuição.
- Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe dissesse o que era. Apenas começou a botar as cartas, disse-me: "A senhora gosta de uma pessoa..." Confessei que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-as e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não era verdade...
- Errou! - interrompeu Camilo, rindo.
- Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua causa. Você sabe; já lhe disse. Não ria de mim, não ria...
Camilo pegou-lhe nas mãos e olhou para ela sério e fixo. Jurou que lhe queria muito, que os seus sustos pareciam de criança; em todo o caso, quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois, repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois...
- Qual saber! Tive muita cautela ao entrar na casa.
- Onde é a casa?
- Aqui perto, na rua da Guarda Velha; não passava ninguém nessa ocasião. Descansa; eu não sou maluca.
Camilo riu outra vez.
- Tu crês deveras nessas coisas? - perguntou-lhe.
Foi então que ela, sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que havia muita coisa misteriosa e verdadeira neste mundo. Se ele não acreditava, paciência; mas o certo é que a cartomante adivinhara tudo. Que mais? A prova é que ela agora estava tranqüila e satisfeita.
Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se. Não queria arrancar-lhe as ilusões. Também ele, em criança, e ainda depois, foi supersticioso, teve um arsenal inteiro de crendices, que a mãe lhe incutiu e que aos vinte anos desapareceram. No dia em que deixou cair toda essa vegetação parasita, e ficou só o tronco da religião, ele, como tivesse recebido da mãe ambos os ensinos, envolveu-os na mesma dúvida e logo depois em uma só negação total. Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia
dizê-lo, não possuía um só argumento; limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros e foi andando.
Separaram-se contentes, ele ainda mais que ela. Rita estava certa de ser amada; Camilo, não só o estava, mas via-a estremecer e arriscar-se por ele, correr às cartomantes, e, por mais que a repreendesse, não podia deixar de sentir-se lisonjeado. A casa do encontro era na antiga rua dos Barbonos, onde morava uma comprovinciana de Rita. Esta desceu pela rua das Mangueiras, na direção de Botafogo, onde residia; Camilo desceu pela da Guarda Velha, olhando de passagem para a casa da cartomante.
Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma aventura, e nenhuma explicação das origens. Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de infância. Vilela seguiu a carreira de magistrado. Camilo entrou no funcionalismo, contra a vontade do pai, que queria vê-lo médico; mas o pai morreu, e Camilo preferiu não ser nada, até que a mãe lhe arranjou um emprego público. No princípio de 1869, voltou Vilela da província, onde casara com uma dama formosa e tonta; abandonou a magistratura e veio abrir banca de advogado. Camilo arranjou-lhe casa para os lados de Botafogo e foi a bordo recebê-lo.
- É o senhor? - exclamou Rita, estendendo-lhe a mão. - Não imagina como meu marido é seu amigo; falava sempre do senhor.
Camilo e Vilela olharam-se com ternura. Eram amigos deveras. Depois, Camilo confessou de si para si que a mulher do Vilela não desmentia as cartas do marido. Realmente, era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa. Era um pouco mais velha que ambos: contava trinta anos, Vilela vinte e nove e Camilo vinte e seis. Entretanto, o porte grave de Vilela fazia-o parecer mais velho que a mulher, enquanto Camilo era um ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do tempo como os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de alguns para adiantar os anos. Nem experiência nem intuição.
Ilustração Renato Alarcão
Fonte: Revista Nova Escola
Escrito por Machado de Assis no ano de 1884, o conto A Cartomante
teve sua publicação original na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro,
jornal que circulou a partir de 1875. Porém, pode ser encontrado nos livros “Várias Histórias” e em “Contos – Uma Antologia”.
O enredo apresenta o casal Rita e Vilela, que é advogado. Ele reencontra Camilo, um de seus amigos
de infância, que contrata seus serviços para tratar dos processos
judiciais que envolvem a morte de sua mãe. Porém, Rita envolve-se com
Camilo e é criado um triângulo amoroso na história.
Misteriosamente, alguém começa a enviar cartas sem
identificação para Camilo. Nos bilhetes, alguém o chama de adúltero, o
que faz com que Camilo comece a ficar mais cauteloso em relação à Rita.
Esta, por sua vez, em dúvidas sobre o amor de Camilo, começa a visitar
uma cartomante. Após algum tempo, Vilela envia uma carta para Camilo, em
que chama o amigo
para ir com urgência até a sua casa, mas não explica o motivo do
convite. Preocupado, Camilo indaga a cartomante, que lhe faz uma
revelação que pode mudar sua vida.
O tempo em que o conto ocorre é o ano de 1869 e o local é o Rio de Janeiro. O escritor ainda cita locais como a Rua da Guarda Velha e a Rua dos Barbonos.
Neste trecho do conto, o escritor mostra como era o relacionamento entre Rita e Camilo:
“Separaram-se contentes, ele ainda mais que ela. Rita estava certa de ser amada; Camilo, não só o estava, mas via-a estremecer e arriscar-se por ele, correr às cartomantes, e, por mais que a repreendesse, não podia deixar de sentir-se lisonjeado. A casa do encontro era na antiga rua dos Barbonos, onde morava uma comprovinciana de Rita”.
Narrando-o em terceira pessoa, neste conto, Machado de Assis
caracteriza os personagens da seguinte forma: Camilo, rapaz de 26 anos, é
descrito como inexperiente e sem intuição. Ele trabalha como
funcionário público. Já Rita, é apresentada como uma mulher de 30 anos,
curiosa, graciosa, tonta e de gestos vivos. Vilela, o marido, é um homem
de 29 anos, advogado, que, apesar da idade, aparenta ser mais velho do
que Rita. A cartomante é uma mulher de grandes olhos, na casa dos 40
anos, italiana e magra.
O desfecho do conto é bastante pessimista. Em seus primeiros
encontros com Rita e, até mesmo, depois da carta que recebe de Vilela,
Camilo crê piamente que o marido não desconfia do romance dos dois.
Então, vai até a casa de Vilela. Quando chega, encontra Rita morta e é
eliminado por um tiro dado por seu amigo de infância.
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